terça-feira, 26 de outubro de 2021

POA

 Eu nunca pensei que viveria indefinidamente em Porto Alegre. Não era parte do meu sonho, nunca tive intenção de vir para ficar. Para mim, como o próprio nome diz, a cidade era apenas como um porto de passagem. Já que não podia ficar em Santiago - pela falta de perspectivas de estudo e trabalho - e que em Santa Maria - cidade de porte médio e que tinha um pouco mais de possibilidades - me sentia limitada pela falta de cinemas, livrarias e bares, achei que seria interessante estudar na capital. É verdade de que nunca fui de fazer planos, mas não pensei que ficaria mais que o tempo que perdurasse o curso de Direito. Sempre achei que meu destino era outro lugar, ainda que isso fosse bem vago. 


Eu não acho a cidade bonita, tampouco interessante. Ela só me parece melancólica, cinzenta, irritante, distante, mas, por vezes, divertida (e só se estou no meu bairro, considerado boêmio, ou no parque da Redenção, que de fato curto). Cada vez que vejo o pôr do sol no Guaíba- que de fato é lindo -, lembro no mesmo instante da podridão da água e sinto vergonha. De morar aqui e de ter um lugar poluído ao extremo como ponto turístico. É um pensamento automático.

O centro da cidade está um desastre. Parece um lugar desolado, deprimente, cheio de lojas para alugar, prédios mal conservados e fechados, tomado de farmácias para todos os lados (vejo que nunca estivemos tão doentes)! Aliás, em duas das quadras principais da Rua da Praia, há nove farmácias. Nove. É patético, é doentio. As pessoas passam pelas ruas: gordas, de cara de fechada, com roupas feias, pedindo, precisando, preocupadas, estressadas, desesperançadas, é isso que vejo. Quando caminho até o  Mercado Público, que entro, até me animo um pouco, há "tudo de tudo", adoro os cheiros, as bancas, as comidas, bebidas, floras, frutas, verduras, confusão. Mas então olho para o andar de cima e me dou conta que há mais de 6 anos houve um incêndio e que passado todo esse tempo, a parte atingida segue interditada e sinto raiva da cidade. E isso também me faz lembrar do porto-alegrenses de raiz, no quanto são radicais, chatos, arrogantes, pretensiosos, esnobes, orgulhosos, fechados e percebo que a cidade não consegue ir para frente justamente por causa desse povinho que se formou por aqui e da qual, querendo ou não também faço parte, da qual me tornei. Esse povinho se acha o máximo, se considera o "europeu brasileiro", mas não consegue reformar seu mercado público, não consegue acabar com as pichações que tomam conta da cidade, não consegue dar bom dia para o colega no elevador, não consegue criticar uma obra "vagabunda" que levou mais de três anos para ser feita e que consumiu mais de 5 milhões, como foi o parque dos açorianos, para colocar duas fontes, graminha, pintar, colocar uma mureta ali ou aqui. Pior, vai em  nesse hordas até esse cocô tirar foto como se fosse a fonte de Trevi de Roma. Não ficou horrível, mas é inacreditável que tenham levado tantos anos e consumido tanto dinheiro para fazer nada de mais.  

A cidade parece grande, mas por dentro é pequena. Em todos os sentidos, especialmente os ruins. E estou aqui, me sentindo presa. Talvez essa Porto Alegre que descrevo, na qual jamais quis viver, seja eu mesma.

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