terça-feira, 26 de outubro de 2021

minutos de sabedoria uberiano

 Eu tenho "pego" Uber praticamente todo dia. Da minha casa até o trabalho, custa menos que uma lotação e pouca coisa mais que o valor de uma passagem de ônibus. Além disso, para qualquer outro deslocamento em que não quero ou não posso ir à pé - bar, mercado, feira, etc - chamo o aplicativo. 


Por essa razão, se tornou um hábito meu conversar com os motoristas que garantem meu deslocamento em segurança e com conforto. Não é difícil essa aproximação breve, já que naqueles minutos entre ir e vir, somos apenas duas pessoas dentro do carro, compartilhando instantes, então, como não trocar alguma ideia, dividir algum sentimento, fazer alguma revelação? 

Hoje, no final do dia, chamei um carro para me levar ao encontro de uma amiga, num restaurante da moda. No caminho, paramos na frente da sinaleira de uma esquina movimentada. Chegamos na esquina e enquanto o motorista aguardava a sinaleira abrir, me virei para o lado e  deparei com o prédio do Hospital Espírita, meio às escuras, eram quase 19:30h. Essa imagem me fez lembrar de uma recente visita na Casa Cor, que foi montada no antigo Hospital da Criança, há 11 anos desativado.

Faz cerca de três semanas que estive lá, mas ainda hoje me arrepio quando lembro. Não especificamente pela mostra de arquitetura (que aliás estava linda e inspirada), mas por ter sido idealizada e construída justamente num antigo hospital. Segui associando, porque a palavra "espírita" me remeteu a uma determinada conversa ocorrida na visita, que acho, desencadeou os dias de estranhamento vividos depois que saí de lá. Num dos ambientes que estive com meu amigo, que é arquiteto e foi o "responsável" pela minha ida, ele perguntou à recepcionista, meio na brincadeira, se as crianças estavam estavam dando muito trabalho. Ela riu, confirmou que sim, que organizavam o lugar num dia e no seguinte, ao chegarem para trabalhar, encontravam vários itens fora do lugar, tinham que reorganizar tudo e o mais expressivo era uma mesa de apoio que o pessoal da reforma colocava no lado direito e no dia seguinte estava no esquerdo. De tanto se repetir as desorganizações, resolveram não mais insistir e deixar a mesa no lugar em que aparecia no dia seguinte. Achei esse comentário mais do que interessante, na verdade, isso me impressionou. Saímos dali e visitamos mais uns trinta ambientes e terminamos o passeio na antiga capela do hospital. Era sábado de noite,  praticamente os últimos visitantes dolugar, que já estava fechando. Ao sair pela porta, ficamos aguardando, ao lado dos seguranças, o motorista do uber que ele havia chamado, chegar. Me virei algumas vezes para olhar o prédio. Nos últimos três andares não houve qualquer reforma ou modificação, continuavam desativados, praticamente intacto desde à época da desativação, permanecendo com as venezianas das janelas dos quartos fechadas.
 No escuro da noite, na rua vazia e mal iluminada, a cena me pareceu meio arrepiante. A seguir, fomos jantar num restaurante japonês. Conversamos, comemos e bebemos sem moderação, o que contribuiu para que eu dormisse muito mal depois. Talvez em algum sonho meio superficial, as imagens do passeio devem ter voltado, permanecendo, ao acordar, uma sensação estranha que me fazia lembrar o tempo todo do prédio, da história que a recepcionista contou, atmosfera escura e misteriosa que me "acompanhou" no domingo e na segunda. Achei que passaria, que poderia ser efeito da ressaca, mas vira e mexe, até hoje essa sensação volta. 
Em termos mais resumidos, comentei esse fragmento vivido com o motorista do Uber. Ele perguntou se eu acreditava em Deus. Primeiro respondi que sim, depois disse que não, mas logo em seguida arrematei que sim, que certamente havia algo maior, que não havia como não existir algo divino. Então, ele referiu que há pouco tempo tinha se convertido. Eu perguntei em quê. Ele disse que se tornou cristão, mas logo a seguir emendou que era evangélico, que estava frequentando a igreja Bola de Neve. Comentou que há energias ruins que estão por perto, que temos que ter cuidado, que algumas vezes, na noite, saiu para distribuir comida para pessoas de rua e que muitas delas tiveram "tudo", mas que por alguma razão, foram embora e não conseguiram mais voltar de onde vieram, que ficavam presos a essa vida, vagando, que isso poderia até mesmo ser por orgulho, que é um sentimento ruim. E que nas ocasiões que fazia esse trabalho voluntário, achava essencial se preparar antes, para não se sentir vulnerável e ser envolvido por essas energias. 

Achei bem interessante essa reflexão. Disse que ter adotado a religião que professa hoje levou um bom tempo, que foi aos poucos que começou a  "orar" (evangélico adora essa palavra), mas que foi um processo longo, que ia nos encontros e gostava, era alegre, leve, gente jovem, mas por incrível que pareça, nas vezes seguintes resistia muito em ir, pois o nosso lado negativo faz com que a gente boicote mudanças. Disse que insistiu e, depois de um tempo, isso se tornou um hábito. E que é assim que conseguimos conquistar as coisas. Isso me fez esquecer um pouco o ranço que tenho dos evangélicos. Esse tipo de comentário é altamente difundido em livros de autoajuda, entre psicólogos, pensadores pop. E acho que eles tem razão nesse ponto. E acho que difundir isso ajuda e não atrapalha. A seguir, ele perguntou se eu já tinha lido a passagem sobre José na Bíblia. Eu disse que não tinha lido a Bíblia. Então, ele começou a me contar a tal passagem. Primeiro achei que se tratava do José, pai terreno de Jesus, o carpinteiro, só que não, se tratava de um governador, que recebeu uma profecia de que durante sete anos ele teria abundância, mas deveria guardar 20% de tudo que fosse produzido, para os anos ruins. E ele cumpriu. O motorista me disse que trabalhava no pólo petroquímico de Triunfo e ganhava muito bem, mas não guardava nada. Desde que passou a orar, frequentar a bola de neve e entender essa filosofia, conseguia guardar dinheiro e, justamente nessa semana, havia conseguido comprar um apartamento e hoje tinha pego a chave. Dei-lhe sinceros e reiterados parabéns, desci do carro e fui encontrar minha amiga. Acho que ele tem razão, no entanto, tenho certeza, mesmo sem ler a Bíblia, que não há nenhuma passagem onde Deus ou algo supremo manda algum José guardar 20% de tudo que ganha.  

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