terça-feira, 26 de outubro de 2021

dias que escorrem

 O tempo voa, o dia não não é suficiente para fazer tudo que eu quero e preciso. Isso não é novidade, leio e ouço o tempo todo as pessoas reclamando sobre a falta de tempo. Mas isso é para alguns, especialmente aqueles que tem ocupações, como é meu caso e/ou os que tem filhos e/ou maridos. Para outras pessoas, como minha Mãe - que está aposentada, sem muitas amizades e sem grana para viajar - ou como aqueles que sofrem de doenças crônicas, apesar dos meses passarem rápido, os dias se arrastam, ficam sem distrações ou ocupações durante a jornada. Paradoxos da vida. Isso é tão triste. 


Eu sei como é viver num dia que não termina, com a sensação de vazio, de desperdício de tempo. Fiquei um bom tempo, mais de ano eu diria, escondida em casa, sem vontade, motivação, mas no início  acordava feliz quando sabia que não tinha nenhum compromisso a cumprir a não ser ver tevê, entrar na internet e me preocupar com o que fosse comer e beber durante o dia. Felizmente, toda a deprê tem seu fim, num belo dia resolvi voltar a vida.

Eu pude fazê-lo, mas quantos não conseguem e sentem o tempo se arrastar e a vida ir-se aos poucos, sem graça e com tédio. 

a anestesia não é seletiva

 Eu não sabia quem era a Brenné Brown, até que um dia, ao ficar zapeando na Netflix, achei um documentário-palestra dela. Não sei porque razão resolvi assistir, com tanta coisa que estava atrasada e queria conferir, como Stranger Things, que não assisti sequer um episódio da última tempora, ou a Casa de Papel, que todos comentam e não parei para ver um único episódio. Mas o fato foi que assisti toda a palestra e, talvez por estar sensível nesse dia, até me emocionei em alguns momentos. Ela é Assistente Social que tinha um "vício" em entrevistar e entender pessoas. Certa vez, foi convidada a fazer uma palestra curta num TED regional nos EUA. O vídeo viralizou. No início, ressalta que ficou apavorada, quis sumir, porém, apesar de ter sofrido algumas críticas negativas, a maioria foi em sentido positivo e repercutiram mundo afora. 

E tanto sucesso foi que a convidaram, algum tempo depois, para palestrar no TED nacional. Daí para o mundo, foi questão de semanas.  Brenné, pelo que entendi, já tinha livros publicados, mas depois disso, escreveu mais alguns e todos viraram sucesso. 
No embalo da palestra, consegui achar o livro que embasa a palestra, a "Coragem de Ser Vulnerável". Na minha concepção, ela, como palestrante, é muitíssimo melhor que escritora. Achei o livro chato, repetitivo, com exemplos bobos, bem diferente da palestra elétrica e animada que fez via Netflix. Mas uma frase no livro - que agora está com a minha irmã mais nova - me marcou - e justamente foi a redenção de tê-lo lido até o final. 

É justamente quando fala dos vícios. E das anestesias. É meio óbvio, mas pode não ser. Não sei se uso os termos exatos, mas o que compreendi é que "a anestesia não é seletiva", ou seja, se você usa drogas, se bebe ou faz uso de medicação, estes vão agir no seu corpo e mente de forma completa, ou seja, não há como escolher alguma parte que não será afetada, quer dizer, não posso escolher a parte que não será afetada. Todas serão. Entendo isso. Quando bebo, penso em ficar calma, alegre e divertida. Porém, se beber me ajuda a segurar a ansiedade, também me limita e/ou bloqueia outros aspectos de mim, como a capacidade de reagir, de pensar, de tomar decisões. E estou falando num aspecto geral, pois se for analisar caso a caso, nas vezes que estive nessa condição, a anestesia pode ser mais ampla.
Desde então, não consigo deixar de pensar nisso e os impactos decorrentes. 

E hoje, ao me sentir descompensada, irritada e quase descontrolada, optei por beber, mesmo tendo me prometido que não faria isso. Após descumprir promessa feita a si mesma, não é fácil manter o equilíbrio.

minutos de sabedoria uberiano

 Eu tenho "pego" Uber praticamente todo dia. Da minha casa até o trabalho, custa menos que uma lotação e pouca coisa mais que o valor de uma passagem de ônibus. Além disso, para qualquer outro deslocamento em que não quero ou não posso ir à pé - bar, mercado, feira, etc - chamo o aplicativo. 


Por essa razão, se tornou um hábito meu conversar com os motoristas que garantem meu deslocamento em segurança e com conforto. Não é difícil essa aproximação breve, já que naqueles minutos entre ir e vir, somos apenas duas pessoas dentro do carro, compartilhando instantes, então, como não trocar alguma ideia, dividir algum sentimento, fazer alguma revelação? 

Hoje, no final do dia, chamei um carro para me levar ao encontro de uma amiga, num restaurante da moda. No caminho, paramos na frente da sinaleira de uma esquina movimentada. Chegamos na esquina e enquanto o motorista aguardava a sinaleira abrir, me virei para o lado e  deparei com o prédio do Hospital Espírita, meio às escuras, eram quase 19:30h. Essa imagem me fez lembrar de uma recente visita na Casa Cor, que foi montada no antigo Hospital da Criança, há 11 anos desativado.

Faz cerca de três semanas que estive lá, mas ainda hoje me arrepio quando lembro. Não especificamente pela mostra de arquitetura (que aliás estava linda e inspirada), mas por ter sido idealizada e construída justamente num antigo hospital. Segui associando, porque a palavra "espírita" me remeteu a uma determinada conversa ocorrida na visita, que acho, desencadeou os dias de estranhamento vividos depois que saí de lá. Num dos ambientes que estive com meu amigo, que é arquiteto e foi o "responsável" pela minha ida, ele perguntou à recepcionista, meio na brincadeira, se as crianças estavam estavam dando muito trabalho. Ela riu, confirmou que sim, que organizavam o lugar num dia e no seguinte, ao chegarem para trabalhar, encontravam vários itens fora do lugar, tinham que reorganizar tudo e o mais expressivo era uma mesa de apoio que o pessoal da reforma colocava no lado direito e no dia seguinte estava no esquerdo. De tanto se repetir as desorganizações, resolveram não mais insistir e deixar a mesa no lugar em que aparecia no dia seguinte. Achei esse comentário mais do que interessante, na verdade, isso me impressionou. Saímos dali e visitamos mais uns trinta ambientes e terminamos o passeio na antiga capela do hospital. Era sábado de noite,  praticamente os últimos visitantes dolugar, que já estava fechando. Ao sair pela porta, ficamos aguardando, ao lado dos seguranças, o motorista do uber que ele havia chamado, chegar. Me virei algumas vezes para olhar o prédio. Nos últimos três andares não houve qualquer reforma ou modificação, continuavam desativados, praticamente intacto desde à época da desativação, permanecendo com as venezianas das janelas dos quartos fechadas.
 No escuro da noite, na rua vazia e mal iluminada, a cena me pareceu meio arrepiante. A seguir, fomos jantar num restaurante japonês. Conversamos, comemos e bebemos sem moderação, o que contribuiu para que eu dormisse muito mal depois. Talvez em algum sonho meio superficial, as imagens do passeio devem ter voltado, permanecendo, ao acordar, uma sensação estranha que me fazia lembrar o tempo todo do prédio, da história que a recepcionista contou, atmosfera escura e misteriosa que me "acompanhou" no domingo e na segunda. Achei que passaria, que poderia ser efeito da ressaca, mas vira e mexe, até hoje essa sensação volta. 
Em termos mais resumidos, comentei esse fragmento vivido com o motorista do Uber. Ele perguntou se eu acreditava em Deus. Primeiro respondi que sim, depois disse que não, mas logo em seguida arrematei que sim, que certamente havia algo maior, que não havia como não existir algo divino. Então, ele referiu que há pouco tempo tinha se convertido. Eu perguntei em quê. Ele disse que se tornou cristão, mas logo a seguir emendou que era evangélico, que estava frequentando a igreja Bola de Neve. Comentou que há energias ruins que estão por perto, que temos que ter cuidado, que algumas vezes, na noite, saiu para distribuir comida para pessoas de rua e que muitas delas tiveram "tudo", mas que por alguma razão, foram embora e não conseguiram mais voltar de onde vieram, que ficavam presos a essa vida, vagando, que isso poderia até mesmo ser por orgulho, que é um sentimento ruim. E que nas ocasiões que fazia esse trabalho voluntário, achava essencial se preparar antes, para não se sentir vulnerável e ser envolvido por essas energias. 

Achei bem interessante essa reflexão. Disse que ter adotado a religião que professa hoje levou um bom tempo, que foi aos poucos que começou a  "orar" (evangélico adora essa palavra), mas que foi um processo longo, que ia nos encontros e gostava, era alegre, leve, gente jovem, mas por incrível que pareça, nas vezes seguintes resistia muito em ir, pois o nosso lado negativo faz com que a gente boicote mudanças. Disse que insistiu e, depois de um tempo, isso se tornou um hábito. E que é assim que conseguimos conquistar as coisas. Isso me fez esquecer um pouco o ranço que tenho dos evangélicos. Esse tipo de comentário é altamente difundido em livros de autoajuda, entre psicólogos, pensadores pop. E acho que eles tem razão nesse ponto. E acho que difundir isso ajuda e não atrapalha. A seguir, ele perguntou se eu já tinha lido a passagem sobre José na Bíblia. Eu disse que não tinha lido a Bíblia. Então, ele começou a me contar a tal passagem. Primeiro achei que se tratava do José, pai terreno de Jesus, o carpinteiro, só que não, se tratava de um governador, que recebeu uma profecia de que durante sete anos ele teria abundância, mas deveria guardar 20% de tudo que fosse produzido, para os anos ruins. E ele cumpriu. O motorista me disse que trabalhava no pólo petroquímico de Triunfo e ganhava muito bem, mas não guardava nada. Desde que passou a orar, frequentar a bola de neve e entender essa filosofia, conseguia guardar dinheiro e, justamente nessa semana, havia conseguido comprar um apartamento e hoje tinha pego a chave. Dei-lhe sinceros e reiterados parabéns, desci do carro e fui encontrar minha amiga. Acho que ele tem razão, no entanto, tenho certeza, mesmo sem ler a Bíblia, que não há nenhuma passagem onde Deus ou algo supremo manda algum José guardar 20% de tudo que ganha.  

POA

 Eu nunca pensei que viveria indefinidamente em Porto Alegre. Não era parte do meu sonho, nunca tive intenção de vir para ficar. Para mim, como o próprio nome diz, a cidade era apenas como um porto de passagem. Já que não podia ficar em Santiago - pela falta de perspectivas de estudo e trabalho - e que em Santa Maria - cidade de porte médio e que tinha um pouco mais de possibilidades - me sentia limitada pela falta de cinemas, livrarias e bares, achei que seria interessante estudar na capital. É verdade de que nunca fui de fazer planos, mas não pensei que ficaria mais que o tempo que perdurasse o curso de Direito. Sempre achei que meu destino era outro lugar, ainda que isso fosse bem vago. 


Eu não acho a cidade bonita, tampouco interessante. Ela só me parece melancólica, cinzenta, irritante, distante, mas, por vezes, divertida (e só se estou no meu bairro, considerado boêmio, ou no parque da Redenção, que de fato curto). Cada vez que vejo o pôr do sol no Guaíba- que de fato é lindo -, lembro no mesmo instante da podridão da água e sinto vergonha. De morar aqui e de ter um lugar poluído ao extremo como ponto turístico. É um pensamento automático.

O centro da cidade está um desastre. Parece um lugar desolado, deprimente, cheio de lojas para alugar, prédios mal conservados e fechados, tomado de farmácias para todos os lados (vejo que nunca estivemos tão doentes)! Aliás, em duas das quadras principais da Rua da Praia, há nove farmácias. Nove. É patético, é doentio. As pessoas passam pelas ruas: gordas, de cara de fechada, com roupas feias, pedindo, precisando, preocupadas, estressadas, desesperançadas, é isso que vejo. Quando caminho até o  Mercado Público, que entro, até me animo um pouco, há "tudo de tudo", adoro os cheiros, as bancas, as comidas, bebidas, floras, frutas, verduras, confusão. Mas então olho para o andar de cima e me dou conta que há mais de 6 anos houve um incêndio e que passado todo esse tempo, a parte atingida segue interditada e sinto raiva da cidade. E isso também me faz lembrar do porto-alegrenses de raiz, no quanto são radicais, chatos, arrogantes, pretensiosos, esnobes, orgulhosos, fechados e percebo que a cidade não consegue ir para frente justamente por causa desse povinho que se formou por aqui e da qual, querendo ou não também faço parte, da qual me tornei. Esse povinho se acha o máximo, se considera o "europeu brasileiro", mas não consegue reformar seu mercado público, não consegue acabar com as pichações que tomam conta da cidade, não consegue dar bom dia para o colega no elevador, não consegue criticar uma obra "vagabunda" que levou mais de três anos para ser feita e que consumiu mais de 5 milhões, como foi o parque dos açorianos, para colocar duas fontes, graminha, pintar, colocar uma mureta ali ou aqui. Pior, vai em  nesse hordas até esse cocô tirar foto como se fosse a fonte de Trevi de Roma. Não ficou horrível, mas é inacreditável que tenham levado tantos anos e consumido tanto dinheiro para fazer nada de mais.  

A cidade parece grande, mas por dentro é pequena. Em todos os sentidos, especialmente os ruins. E estou aqui, me sentindo presa. Talvez essa Porto Alegre que descrevo, na qual jamais quis viver, seja eu mesma.

inicio de férias

Oficialmente, amanhã começam minhas férias. Serão 16 dias, a partir de segunda-feira. Os últimos dois dias de trabalho foram um inferno, na verdade, ele estava dentro de mim, eu era o próprio Diabo. Estressada, impaciente, ansiosa (mais do que o normal),  querendo deixar tudo pronto, mas sabendo que não iria,  devendo dormir e comer direito, mas sem conseguir, precisando me concentrar, mas sem me esforçar. 

Fui "quase" a última pessoa a sair do escritório na sexta. Consegui deixar "quase" tudo organizado, mas não cumpri todas as metas que precisava.

Eu sei que é pretensão querer colocar tudo em ordem na última hora, que isso não funciona e, pior, não faz sentido, são poucos dias e provavelmente vários prazos e trabalhos que pretendia executar antes de sair não faria dentro desse período que estarei fora, simplesmente porque não eram urgentes e outras coisas mais importante iriam surgir no lugar, mas ano vem e ano vai, a cada período de férias, eu sempre tento.

Também queria ter deixado pronta a ação de uma questão de família, que desde abril me enrolo. Mas vi que não ia conseguir. E agora, azar, vou viajar terça para Maceió e vai ficar para depois.

Eu sempre me repito. A cada novo ano, prometo que farei diferente, que não vou adiar, que deixarei o trabalho sempre em dia, que me cuidarei mais para não chegar tão cansada e com ares de desespero antes das férias, mas, pra variar, cometo os mesmos erros. 

o peso ou a leveza

 Há quase trinta anos atrás, li pela primeira vez a A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Foi como um tijolo na cabeça, nunca mais enxerguei a vida do mesmo jeito. Como escolhemos levar a vida? No peso ou na leveza? O livro acompanha o relacionamento de dois casais ao longo de uma ou duas décadas na antiga Tchecoslováquia. 

Eu sempre desejei a leveza, mas andava com pesos amarrados aos pés, que eram tão difíceis de carregar que eu precisava me anestesiar. Lembrei agora do clip de uma música que gosto muito, em que o vocalista anda na beira da praia arrastando não correntes, mas dezenas de latas de cerveja amarradas aos seus pés. Tão eu. 

Em alguns poucos momentos da vida, parecia que conseguia me libertar um pouco desse excesso, mas em seguida me via de submergindo entre pedras no rio. 

Pouco antes das minhas férias, há vinte dias atrás, estava arrastando correntes pelo escritório, preocupada com os clientes  (muitos necessitados e com demandas urgentes), incomodada com a demora do judiciário, com decisões ruins, com Peritos cretinos, com falta de dinheiro, tomando muito café, bebendo demais, dormindo de menos e sem qualidade, a ponto de perder boa parte da vaidade, da fé. Eu queria sumir. Mas então a colega que tinha saído em licença maternidade voltou, eu tirei meus 18 dias (incluindo fins de semana) e consegui me afastar um pouco de tudo.

Meus problemas não acabaram durante as férias, viajei alguns dias para Maceió e, como me levei, não tinha para onde fugir. Mas consegui passar uns dias por lá, ora errando, ora acertando, voltei e resolvi organizar a vida, me cuidar, enfrentar desafios (questões jurídicas de família) que vinha enrolando e deixando para depois e não menos importante, resolvi fazer meus vícios descerem a escada, degrau por degrau, como diz a frase de um escritor famoso citado no instagram, mas agora não lembro. 

E uma das questões que tenho por meta, também, é ser mais leve e menos pesada nessa vida. Não é que não vá sofrer, chorar, me envolver, evitar coisas difíceis ou duras. Mas eu pretendo ter empatia, só que sem excesso. Pretendo ajudar, mas sem me demolir ou deprimir e tentar sempre ver o lado bom...e quando não conseguir, rezar e torcer para que um dia eu possa entender porque coisas ruins acontecem. Porque acho que só assim a vida pode ser mais suportável. Vejo que as pessoas mais leves são muitas vezes as mais resilientes. E muitas delas, ao contrário do que se pensa, passaram por coisas dificilimas na vida - como uma mulher que conheci na viagem, em Maceió. Mas escolhem sobreviver e ultrapassar isso. Ela é leve, encantadora e nada a faz parar. Espero que continue assim e que realize seus sonhos. Mesmo minha colega de escritório, cuja Mãe lutou contra vários cânceres durante 07 anos, o que envolveu inúmeros sustos, internações, renúncias, dor e sofrimentos diversos, também tem um modo positivo de levar a vida, com força e sorrisos. 
Procuro pela leveza, mas sem superficialidade. E vou lutar por isso. 

o tempo voa

Os dias estão voando. Eu tenho acordado por volta das 06h, 06:10h. Levanto e em seguida saio para a academia. Volto, tomo café, me arrumo e saio para o trabalho, onde chego por volta das 09:30h. Não consigo fazer metade das coisas que me planejo fazer durante as horas que estou por lá. 

É certo que me distraio um pouco (muito), converso com os colegas, levanto várias vezes da cadeira, pego uma xícara de chá, uma fruta, navego por sites de notícia e de fofoca pela internet até conseguir me concentrar e trabalhar. Mas mesmo se reduzisse essas interrupções, não conseguiria realizar tudo que preciso.

Tenho uma hora de almoço, vou ao restaurante, almoço e quando saio, tenho menos de 30 minutos para fazer alguma tarefa: farmácia, pagamento, sentar ao sol que seja. Saio do escritório por volta das 18:15h, 18:30h e felizmente chego rápido em casa. Troco de roupa, tomo chimarrão, faço a janta, vejo um pouco de tevê e quando vejo, já são 21:30 h e não sentei para escrever como gostaria, não peguei meus livros de espanhol para estudar uma hora como me planejei, não deu tempo de abrir o livro de direito para ler um capítulo, mal consegui passar algumas folhas do livro de ficção que estou lendo e esqueci da hora da meditação. Quando vejo, quase meia-noite e perco a luta diária para o sono, pois afinal, não tem como não descansar. 

Como as pessoas conseguem fazer tantas coisas, ser "multitarefa", como? A Marí tem filho, marido, empregada, apartamento em Porto Alegre, na praia e em Gramado, além de imóveis diversos, portanto, diversas obrigações financeiras. Faz duas cadeiras de psicologia, vai e volta de reuniões, atende e faz prazos no escritório, achou um espaço para fazer reforma na sala e cozinha de onde mora, lê para o filho antes de dormir. Eu não tenho nem 1/3 dos afazeres dela (inclusive marido e filho) e não consigo dar conta de quase nada.

Gostaria de entender os mistérios do tempo, porque para alguns voa, para outros se arrasta e, enquanto tantos o desperdiçam, poucos o aproveitam. Qual o mistério?

 

Mal do Século

 Minha colega atende uma cliente com sérios problemas psiquiátricos. Ela tentou se matar no trabalho - é técnica de enfermagem de um grande hospital, trabalhava à noite. Foi demitida algum tempo após essa situação, mas minha colega conseguiu, em ação judicial, que retornasse ao trabalho. 


No entanto, embora tenha acatado a decisão judicial, o hospital se recusou a mantê-la no turno da noite, porque ficaria sozinha no setor em alguns horários, determinando que fosse para o dia, pois tinha medo que ela tentasse novamente colocar fim à própria vida. A cliente ficou revoltadíssima com a situação, mas voltou ao trabalho. Durou pouco, acabou sendo afastada para tratamento, ou seja, está em benefício previdenciário. 

 Segunda-feira esteve no escritório foi atendida pelo meu colega que atende a área previdenciária. Após ela ir embora, esteve na minha sala e, meio chocado e meio divertido, contou que a cliente continuava perturbada e, que disse, ao entrar na salinha de atendimento, que um velho que empurrava uma perna havia entrado junto com ela.

 A moça (tem apenas 32 anos) diz ver pessoas mortas o tempo todo. Gente sofrida, com cortes, machucados.  Disse que é horrível e que na última consulta que teve com a psiquiatra, esta recomendou que ela fosse procurar um centro espírita - acho que já percebeu que só entregando a Deus, que a medicação não está resolvendo. Disse, também, que não era esquizofrênica, "apenas" tem diagnóstico de bipolaridade. Comentou que sua irmã não a aguenta mais, porque  seguidamente lhe prega sustos, fazendo-a correr ao hospital. Na última vez, foi parar na emergência porque tomou banho com Kboa e passou, inclusive nas "partes íntimas". Ao ouvir isso, meu colega diz ter perguntado, na lata, se ela havia sido abusada. A cliente negou, disse que sempre foi muito brava, como quem diz que ninguém se atreveria a fazer isso. Mas sinceramente, me parece muito provável. 

Aliás,  talvez o fato de dizer que era muito brava seja reação a algum momento anterior, em que não tivesse podido se defender. Mas tudo são especulações minhas e do meu colega. 

É muito triste ver uma pessoa tão jovem extremamente perturbada. E mesmo que algumas histórias que conta sejam criação sua, ainda assim é triste, pois está em benefício previdenciário, em tratamento médico e possivelmente ficará anos padecendo dessas loucuras, atormentada. 

Me impressiona o número de pessoas que chegam no escritório todo dia com problemas psiquiátricos. Dizem que é o mal do século. Estou começando a acreditar.

como defender?

 Como defender um empregado, que foi demitido por justa causa, após a empresa que trabalhava apurar que ele cometeu assédio sexual à uma menor aprendiz, de apenas 16 anos? Já há, inclusive, condenação criminal nesse sentido.


É possível defender dois auxiliares administrativos que cometeram fraudes contra a empresa, desviando dinheiro em benefício próprio? Conforme a investigação feita, os indivíduos em questão tinham acesso ao sistema da empresa que confeccionava as folhas de pagamento e, diante disso, retiravam da os descontos que deveriam ser feitos por empréstimos consignados que fizeram de suas fichas, recebendo o valor integral do salário, com exceção dos descontos de INSS, plano de saúde e IR. Embora a empresa pagasse ao banco e/ou financeira essas parcelas, não era restituída posteriormente.

Meu colega de escritório teve o azar de atender, em sequência, essas pessoas. O mais bizarro foi que nenhum dos três pareceu arrependido ou moralmente incomodado com suas atitudes, quando muito irritados, preocupados ou com medo por terem sido pegos. As desculpas dadas foram as piores possíveis, inclusive os dois auxiliares administrativos chegaram a culpar a empresa porque não foi diligente e possibilitou que eles tivessem acesso ao sistema - na função exercida, em tese, não teriam autorização para essa "entrada".

A gente se revolta com a corrupção que vê na política, que ouve nas notícias, como se fosse algo distante de nós. Só que não, está em todo o lugar, disseminado como praga. Como dizem por aí, o que vemos no congresso é só um espelho da nossa população.