Minha colega atende uma cliente com sérios problemas psiquiátricos. Ela tentou se matar no trabalho - é técnica de enfermagem de um grande hospital, trabalhava à noite. Foi demitida algum tempo após essa situação, mas minha colega conseguiu, em ação judicial, que retornasse ao trabalho.
No entanto, embora tenha acatado a decisão judicial, o hospital se recusou a mantê-la no turno da noite, porque ficaria sozinha no setor em alguns horários, determinando que fosse para o dia, pois tinha medo que ela tentasse novamente colocar fim à própria vida. A cliente ficou revoltadíssima com a situação, mas voltou ao trabalho. Durou pouco, acabou sendo afastada para tratamento, ou seja, está em benefício previdenciário.
Segunda-feira esteve no escritório foi atendida pelo meu colega que atende a área previdenciária. Após ela ir embora, esteve na minha sala e, meio chocado e meio divertido, contou que a cliente continuava perturbada e, que disse, ao entrar na salinha de atendimento, que um velho que empurrava uma perna havia entrado junto com ela.
A moça (tem apenas 32 anos) diz ver pessoas mortas o tempo todo. Gente sofrida, com cortes, machucados. Disse que é horrível e que na última consulta que teve com a psiquiatra, esta recomendou que ela fosse procurar um centro espírita - acho que já percebeu que só entregando a Deus, que a medicação não está resolvendo. Disse, também, que não era esquizofrênica, "apenas" tem diagnóstico de bipolaridade. Comentou que sua irmã não a aguenta mais, porque seguidamente lhe prega sustos, fazendo-a correr ao hospital. Na última vez, foi parar na emergência porque tomou banho com Kboa e passou, inclusive nas "partes íntimas". Ao ouvir isso, meu colega diz ter perguntado, na lata, se ela havia sido abusada. A cliente negou, disse que sempre foi muito brava, como quem diz que ninguém se atreveria a fazer isso. Mas sinceramente, me parece muito provável.
Aliás, talvez o fato de dizer que era muito brava seja reação a algum momento anterior, em que não tivesse podido se defender. Mas tudo são especulações minhas e do meu colega.
É muito triste ver uma pessoa tão jovem extremamente perturbada. E mesmo que algumas histórias que conta sejam criação sua, ainda assim é triste, pois está em benefício previdenciário, em tratamento médico e possivelmente ficará anos padecendo dessas loucuras, atormentada.
Me impressiona o número de pessoas que chegam no escritório todo dia com problemas psiquiátricos. Dizem que é o mal do século. Estou começando a acreditar.
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