terça-feira, 15 de agosto de 2017

consumismo nosso de cada dia

Hoje passei a tarde no Shopping Iguatemi. Quando estava chegando lá, me esforcei para lembrar do que precisava comprar, para não me distrair: uma camisa branca e uma calça jeans. 

Ao entrar, já estava angustiada, porque estamos no final do inverno e os lançamentos primavera - verão estão chegando, daí lembrei de tudo "o mais" que "preciso":biquínis, short, camisetas, sandálias, tudo "novo de novo". Haja dinheiro, haja tempo, haja lugar para guardar no armário. 

Mas como não ter, como não estar usando o que todos estão usando? Agora está "on top" o vestido poá (de novo!), a blusa ou regata amarelo ouro, a camiseta "podrinha" (e que não sai por menos de 100 reais) com saia plissada dourada ou prata.

 Sim, eu preciso ter. Quanto mais adquiro, mais pareço precisar, é algo sem fim.

Resultado do passeio: saí de lá com duas blusas lindas, coloridas e caras demais. E sem a camisa branca e o jeans, ou seja, continuo "necessitando" dessas peças que fui tentar comprar. E depois que adquiri-las (ou mesmo antes disso), vou "precisar" de outras peças, vai depender do que surgir, pode ser um blaser vermelho, uma calça branca, uma sandália dourada e por aí vai.

Não há fim. Compro um vestido lindo e penduro no guarda-roupa. Na semana seguinte, antes mesmo de usá-lo, dou de cara com outro ainda mais fantástico, longo, com detalhes em croché. Não resisto, compro. Já tenho, portanto, dois pendurados lado a lado e acompanhados de outros tantos que já estão há mais tempo no acervo. Mas aí percebo que preciso de uma bolsa e uma sandália para combinar com as novas aquisições, pois sem tais acessórios, "não tem" como usá-los. Aí vou à procura.

De repente, ao acessar o instagram, dou de cara com um uma celebridade que sigo, se exibindo com o maiô mais lindo do mundo. E penso: verão chegando, também quero uma peça dessas. Mais uma comprinha. Na busca, me deparo com a saia de couro que sempre desejei. Adiante, uma jaqueta bomber estampada divina. E segue a roda viva do consumismo. 

Quem dera fosse apenas nas roupas, sapatos e acessórios. Até a gastronomia virou um objeto de desejo insano e doentio.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Férias e mundo paralelo

Entrei em férias na sexta-feira. Sábado e domingo passou sem que eu me sentisse em "tal" condição. Estamos em agosto, restinho de um inverno morno em Porto Alegre. Gosto de dar uma parada no meio do ano, já estava sem saco e paciência para trabalhar, precisava dar uma pausa na rotina do escritório. Acordei cedo, havia combinado com a faxineira dela vir cedinho e, assim que chegou, eu desapareci de casa. Fui ao dermatologista e a ideia era ir na academia depois. Estava sem pressa para voltar para o apto, já que é pequeno e a moça estaria trabalhando nele.

Portanto, depois da consulta, saí caminhando pelo bairro e entrando em lojas, especialmente óticas. Preciso de um óculos para ler, não consigo achar a armação certa, é meu primeiro, ainda não tenho expertise nisso. Experimentei, fiz orçamentos, depois dei uma volta no shopping Moinhos, almocei num restaurante de comida caseira ótima e então peguei uma lotação para o centro. Queria ir na rodoviária, mas acabei descendo no centro da cidade. 

Foi então que a atmosfera mudou. 

Estava em Porto Alegre numa segunda-feira, em horário dito comercial, no centro da cidade, onde trabalho, mas tudo estava estranho. Era a mesma cidade, mas tudo estava diferente. E eu, por outro lado, era outra, não a advogada, a funcionária do escritório em sua hora do intervalo, mas uma pessoa sem pressa, uma quase turista, com tempo suficiente para procurar óculos. As lojas estavam, em sua maioria, vazias. Muitos vendedores sentados, olhavam em direção à porta, sei lá se conformados ou se ansiosos para que alguém entrasse. Em algumas que entrei, nada de interessante achei, pareciam lugares irreais, fora do tempo. Aquele ponto da cidade me pareceu decadente, triste. Era e não era minha cidade, me sentia uma estranha no ninho.

 Fiquei cerca de 40 minutos na região e logo em seguida fui para a academia. A sensação me perseguiu, não havia muita gente ali por causa do horário. Fiz os exercícios, fiquei mais animadinha, adoro, simplesmente adoro musculação, principalmente exercícios para os membros superiores. E depois que finalizei, saí ainda com aquela sensação de mundo alternativo. Eu, com todo o tempo do mundo, na segunda-feira. No ano passado, tirei 10 dias de férias, mas praticamente fiquei todo o tempo entre Praia do Forte e Salvador (BA). Não tive esse estranhamento, de permanecer na mesma cidade, como agora. Tenho mais nove dias pela frente. Não vou fazer uma grande viagem, apenas quarta-feira pretendo ir visitar minha irmã e afilhado em Balneário Camboriú.


Ah, sim, outra coisa que me causou estranhamento foi o fato de estar estudando. Ontem, domingo, me puxei e passei três horas estudando matéria sobre falência e recuperação judicial. E hoje, estudei de novo. Eu, nas férias, estudando? Talvez tenha sido na tarde de domingo, quando sentei para ler, que entrei num mundo paralelo.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Coadjuvante da própria vida

Coadjuvante, segundo o dicionário (https://www.dicio.com.br/coadjuvante/), significa personagem secundária, que coadjuva, auxilia ou coopera com outrem; característica do que é secundário ou suplementar.

 Bem, basta assistir um filme, uma peça, uma novela para facilmente verificarmos os atores que exercem esse papel, orbitando ao redor do protagonista, ajudando-o a brilhar. Após a performance, até mesmo esses profissionais voltam a sua vida e espero, se tornam protagonistas destas. Também é assim com as pessoas normais. Você trabalha num escritório, numa loja, muitas vezes exerce um papel secundário, coadjuvante. Terminado o trabalho, assume a sua vida, seu protagonismo no mundo, ainda que na sua casa, em família.

Eu, por minha vez, tenho me sentido coadjuvante da minha própria vida, não só no trabalho, mas na vida familiar, social, amorosa. É como se vivesse sempre me escondendo, esperando a hora de ter minha chance no palco da própria vida. Enquanto o tempo passa, faço o papel de "escada", "apoio" de colegas, amigos, familiares.

 Dia desses, almoçando com uma amiga, percebi mais nitidamente que todas as outras vezes esse papel secundário que represento. Enquanto estivemos reunidas, eu praticamente a entrevistava, ou seja, minha função era perguntar, fazer algum comentário dentro do tema que ela monopolizava, questionar novamente, dar alguma opinião tímida (sem muita veemência), sempre cuidando para evitar lhe tirar o "brilho" ou criar conflito. Por exemplo, no carro, enquanto íamos para o shopping, perguntei como havia sido seu fim de semana. Ela respondeu que meio sem graça, disse que havia dormido muito, que saiu no sábado apenas para jantar e desde então continuava meio preguiçosa (era quarta-feira). E silêncio. Nada me perguntou. Só comentei delicadamente que isso talvez fosse bom, "às vezes é bom desacelerar".

 Quando pensei em falar sobre o meu fim de semana, ela direcionou para outro assunto, de cunho mais profissional. Não pediu minha opinião, tampouco pareceu ter ouvido meus comentários a respeito.

Sei bem que a culpa é minha. Por alguma razão, achei que "atuando" assim seria aceita, desejada, necessária. Mas vale pagar esse preço?

quinta-feira, 2 de março de 2017

contra o tempo

Acho que não sou a única a reclamar da falta de tempo. Não que eu seja tão ocupada, minha vida é normal, não tenho filho, marido, não preciso arrumar a casa todo dia, almoço em restaurantes perto do trabalho, apenas tomo café e janto em casa, ocasiões em que costumo cozinhar, mas sequer preciso lavar a louça, pois minha Mãe faz essa gentileza. Moro com ela, ela mora comigo.

Eu não trabalho mais que 8 horas por dia, aliás, menos que isso, considerando o intervalo e o tempo no escritório em que disperso e converso com colegas ou faço uma ou outra coisa de caráter pessoal ou navego na internet

Na minha rotina, tento incluir a academia 3 vezes por semana (não tenho conseguido ir nem 2 vezes nos últimos meses), um recente curso de Mindfulness (2 horas nas terças - e vai diminuir para 1 hora de duração) e são essas as obrigações extra-trabalho por enquanto. 

Não fico presa em engarrafamentos, gasto muito pouco tempo com deslocamento para ir ao escritório, academia e para ir e vir do curso que estou fazendo há quase dois meses, é tudo relativamente perto de casa.

Mesmo assim, é uma "luta" para, além de tais obrigações, achar tempo diário para leitura, para ver um filme ou série de tevê, para meditar, tomar banho, lavar o cabelo, secar, me maquiar (sou rápida), entrar no face, instagram (esse é 1x na semana, quando muito 2x), organizar contas, pagamentos (não é todos os dias, mas 2, 3  dias por mês), entrar nesse blog para escrever, dormir. 

O tempo simplesmente escapa pelas mãos, não faço nem metade do que gostaria, mesmo levantando às 7h e indo dormir depois da meia-noite. E nem comecei o curso de português que o escritório vai oferecer provavelmente nas segundas-feiras, ou mesmo fui atrás do curso de espanhol que estou a fim de recomeçar.

Por isso, quando vejo minha estante de livros, dá uma puta ansiedade, há tanta coisa boa e legal pra ler, mas pego um livro, viro 3, 4 páginas e não aguento mais. Já comecei muitos, vários pela metade. 

A situação se complica ainda mais quando saio com amigas para um café ou barzinho, pois no dia seguinte fico ainda mais "devagar" por sair da rotina e, claro, beber,  e o tempo ainda mais veloz.

Nos finais de semana, o tempo parece mais lento, entretanto, eu fico ainda mais lerda. Sábado de manhã ainda consigo levar adiante várias atividades, como academia, feira, mercado, mas depois do almoço, vou perdendo o ritmo, me enrolo, quando muito consigo ir ao cinema de tarde ou algum programinha de noite, fica aquela sensação de desperdiçar o dia. 

No domingo é ainda pior, "efeito tartaruga" mesmo, acordo mais tarde, fico na frente da tevê revendo séries e filmes antigos, dou uma espiada no jornal, tento ler um livro, mas rendimento zero, às vezes saio para almoçar ou tomar um café à tarde, a noite chega e o tempo de se foi, quando vejo, é quase meia-noite. 

Durante a semana, falta tempo. No fim de semana, sobra tempo e não sei aproveitar.  

E o que mais me causa angústia é ver que colegas, amigas parecem fazer muito mais que eu no mesmo tempo. Vá entender... 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Miami poderia ser aqui...só que não

A classe alta e classe média alta de Porto Alegre vive em bairros específicos e conhecidos da cidade, como Petrópolis, Chácara das Pedras, e regiões em torno do Shopping top da cidade, o Iguatemi, onde há prédios e condomínios verticais sofisticados, com portarias e câmeras de vigilância. Na zona sul, imperam casas e condomínios horizontais chiques, com piscinas, saunas, quadras de tênis e o que mais se imaginar. Esse público vive no estilo "way of life" americano. Para eles, Miami poderia ser a sua capital. É como se a classe média baixa e os abaixo dessa linha fossem uma "verdade inconveniente", que parte serve como mão de obra barata, que outra, dos indigentes, só serve para infestar suas cidades e que os demais, que não pertencem a essas categorias, são os vagabundos e cidadãos do mal. 

E o que é pior: a nossa "nobreza" é a minoria, mas é a classe dominante, a que manda e define os destinos do país.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Cidadãos de bem

Na revista Donna* de hoje, parte integrante do jornal Zero Hora, me deparei com a coluna semanal da jornalista Mariana Kalil, intitulada "Sensibilidade para o Absurdo". Ela conta que desde que chegou em Punta Del Este, no Uruguai, onde está há mais de mês, consegue ter hábitos normais, como caminhar pela rua tranquilamente, mesmo à noite, para tomar um sorvete, sair de carro sem se preocupar com bandido à espreita para tentar assaltá-la na hora de entrar e sair dele, ou seja, atividades triviais que seriam normais em qualquer país decente, mas que em Porto Alegre, Brasil, é cada vez mais perigoso. Para bem ilustrar, citou alguns passeios prosaicos que tentou fazer recentemente na cidade, como andar de bicicleta ou falar ao celular enquanto caminhava por uma calçada em bairro movimentado da cidade, situações em que teve que fugir porque correu risco de ter seus bens roubados. Finalizou com a seguinte reflexão: "Esta temporada de liberdade a qualquer hora do dia ou da noite que tenho desfrutado aqui no Uruguai e em qualquer país com o mínimo de decência só me abriu ainda mais os olhos para esta sensibilidade para o absurdo que andava perdendo. É a falta dela que vai nos matar enquanto cidadãos de bem. É dela que precisamos para não achar todo este disparate normal". 

Pois bem. Ultimamente, tenho lido e ouvido com bastante frequência a expressão "cidadãos de bem". E eu a abomino. Quando se diz que há cidadãos de bem, automaticamente se considera que do outro lado há cidadãos do "mal" e essa divisão é pobre, rasa, simplista, E mais: porque me parece claramente elitista, já que proferida quase - somente, por gente, digamos, "favorecida", aqueles que acreditam carregar sozinhos o país nas costas, que pagam impostos, "dão" empregos, trabalham duro, como empresários, políticos, jornalistas, médicos, servidores estaduais, federais, da justiça. São tais pessoas que percebo usando essa expressão e sentindo-se cada vez mais acossadas e ameaçadas pela violência diária. Bem, talvez porque eu não ouça a voz dos "desfavorecidos" ou "carregados nas costas". Talvez. Ou porque já não falam, se acostumaram com esse "estilo de vida" há mais tempo.

Penso que pode residir justamente nessa bipolaridade o grande problema da violência crescente em Porto Alegre. Hoje, vivemos um momento em que parece inexistir matizes, ou seja, se não está do meu lado, está contra mim; se não é de esquerda, é de direita; se está preso, é mau, se está livre, é bom; se trabalha, é esforçado, se não trabalha, é vagabundo. Como se não houvesse tantos "tons de cinza"*, como o inteligente título do livro erótico da escritora E. L. James. 

Há uma clara divisão na nossa sociedade, formaram-se nítidas castas, grupos de pessoas que não mais se identificam entre si. E assim, o conceito de cidade, comunidade, se perde. Para piorar, com as mudanças políticas que ocorreram, especialmente com o impeachment da Dilma, até mesmo em castas iguais há rachaduras, o que dificulta ou impede ainda mais o diálogo.

Quando uma amiga me conta que ficou chocada e triste quando leu no jornal que um artista que costumava expor seus trabalhos na Redenção foi morto há alguns meses atrás, ao ser assaltado quando chegava em casa, num bairro de classe média da cidade, vejo que ela teve empatia por essa pessoa e a família, certamente porque se sentiu no mesmo nível, portanto, exposta a esse risco também.

No entanto, essa divisão de "gentes" a levou a não dar qualquer importância  pela notícia de um menino que foi morto na favela enquanto brincava, por bala perdida ou a de mais de 50 presos que foram executados e decapitados dentro de um presídio no norte do país. É claro que nos identificamos mais com os iguais, é natural. Mas ela, nesse caso, mostrou total indiferença com os desiguais e mais, com relação aos presos, chegou a considerar que foi bem feito, acrescentado que "bandido bom é bandido morto"

Mais um risco dessa bipolaridade: achar que todos os que estão fora de sua bolha não são importantes e relevantes e, portanto, descartáveis, pois o que importa é o bem estar do seu grupo. E essa é a grande cilada e meu principal temor: pela ausência de senso de comunidade, não mais nos importarmos com direitos humanos e dignidade básica das pessoas que estão "de fora" ou que não são consideradas homens de bem.

Mas é o sentimento que venho notando não só com minha amiga, mas com muita gente que conheço. E que parecem crer que basta aumentar o policiamento, tornar os processos mais ágeis, pagar melhor os policiais, prender e matar os bandidos que, "plim plim", tudo há de melhorar e Porto Alegre e o resto do Brasil vão se tornar de novo lugares seguros para viver, como num passe de mágica.

Não acredito que a solução seja só essa, pois quando muito vai conter a tal "escalada de violência" como costuma falar a mídia. E por um tempo somente.

Na verdade, VIVEMOS NUM PAÍS SEGREGADO, formado por uma população dividida e que não consegue mais se comunicar. Sem senso de comunidade,  não há cidade e isso leva ao colapso.

Não sei o que o futuro nos reserva, mas não parece nada animador.