domingo, 5 de fevereiro de 2017

Cidadãos de bem

Na revista Donna* de hoje, parte integrante do jornal Zero Hora, me deparei com a coluna semanal da jornalista Mariana Kalil, intitulada "Sensibilidade para o Absurdo". Ela conta que desde que chegou em Punta Del Este, no Uruguai, onde está há mais de mês, consegue ter hábitos normais, como caminhar pela rua tranquilamente, mesmo à noite, para tomar um sorvete, sair de carro sem se preocupar com bandido à espreita para tentar assaltá-la na hora de entrar e sair dele, ou seja, atividades triviais que seriam normais em qualquer país decente, mas que em Porto Alegre, Brasil, é cada vez mais perigoso. Para bem ilustrar, citou alguns passeios prosaicos que tentou fazer recentemente na cidade, como andar de bicicleta ou falar ao celular enquanto caminhava por uma calçada em bairro movimentado da cidade, situações em que teve que fugir porque correu risco de ter seus bens roubados. Finalizou com a seguinte reflexão: "Esta temporada de liberdade a qualquer hora do dia ou da noite que tenho desfrutado aqui no Uruguai e em qualquer país com o mínimo de decência só me abriu ainda mais os olhos para esta sensibilidade para o absurdo que andava perdendo. É a falta dela que vai nos matar enquanto cidadãos de bem. É dela que precisamos para não achar todo este disparate normal". 

Pois bem. Ultimamente, tenho lido e ouvido com bastante frequência a expressão "cidadãos de bem". E eu a abomino. Quando se diz que há cidadãos de bem, automaticamente se considera que do outro lado há cidadãos do "mal" e essa divisão é pobre, rasa, simplista, E mais: porque me parece claramente elitista, já que proferida quase - somente, por gente, digamos, "favorecida", aqueles que acreditam carregar sozinhos o país nas costas, que pagam impostos, "dão" empregos, trabalham duro, como empresários, políticos, jornalistas, médicos, servidores estaduais, federais, da justiça. São tais pessoas que percebo usando essa expressão e sentindo-se cada vez mais acossadas e ameaçadas pela violência diária. Bem, talvez porque eu não ouça a voz dos "desfavorecidos" ou "carregados nas costas". Talvez. Ou porque já não falam, se acostumaram com esse "estilo de vida" há mais tempo.

Penso que pode residir justamente nessa bipolaridade o grande problema da violência crescente em Porto Alegre. Hoje, vivemos um momento em que parece inexistir matizes, ou seja, se não está do meu lado, está contra mim; se não é de esquerda, é de direita; se está preso, é mau, se está livre, é bom; se trabalha, é esforçado, se não trabalha, é vagabundo. Como se não houvesse tantos "tons de cinza"*, como o inteligente título do livro erótico da escritora E. L. James. 

Há uma clara divisão na nossa sociedade, formaram-se nítidas castas, grupos de pessoas que não mais se identificam entre si. E assim, o conceito de cidade, comunidade, se perde. Para piorar, com as mudanças políticas que ocorreram, especialmente com o impeachment da Dilma, até mesmo em castas iguais há rachaduras, o que dificulta ou impede ainda mais o diálogo.

Quando uma amiga me conta que ficou chocada e triste quando leu no jornal que um artista que costumava expor seus trabalhos na Redenção foi morto há alguns meses atrás, ao ser assaltado quando chegava em casa, num bairro de classe média da cidade, vejo que ela teve empatia por essa pessoa e a família, certamente porque se sentiu no mesmo nível, portanto, exposta a esse risco também.

No entanto, essa divisão de "gentes" a levou a não dar qualquer importância  pela notícia de um menino que foi morto na favela enquanto brincava, por bala perdida ou a de mais de 50 presos que foram executados e decapitados dentro de um presídio no norte do país. É claro que nos identificamos mais com os iguais, é natural. Mas ela, nesse caso, mostrou total indiferença com os desiguais e mais, com relação aos presos, chegou a considerar que foi bem feito, acrescentado que "bandido bom é bandido morto"

Mais um risco dessa bipolaridade: achar que todos os que estão fora de sua bolha não são importantes e relevantes e, portanto, descartáveis, pois o que importa é o bem estar do seu grupo. E essa é a grande cilada e meu principal temor: pela ausência de senso de comunidade, não mais nos importarmos com direitos humanos e dignidade básica das pessoas que estão "de fora" ou que não são consideradas homens de bem.

Mas é o sentimento que venho notando não só com minha amiga, mas com muita gente que conheço. E que parecem crer que basta aumentar o policiamento, tornar os processos mais ágeis, pagar melhor os policiais, prender e matar os bandidos que, "plim plim", tudo há de melhorar e Porto Alegre e o resto do Brasil vão se tornar de novo lugares seguros para viver, como num passe de mágica.

Não acredito que a solução seja só essa, pois quando muito vai conter a tal "escalada de violência" como costuma falar a mídia. E por um tempo somente.

Na verdade, VIVEMOS NUM PAÍS SEGREGADO, formado por uma população dividida e que não consegue mais se comunicar. Sem senso de comunidade,  não há cidade e isso leva ao colapso.

Não sei o que o futuro nos reserva, mas não parece nada animador.


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