terça-feira, 26 de outubro de 2021

o peso ou a leveza

 Há quase trinta anos atrás, li pela primeira vez a A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Foi como um tijolo na cabeça, nunca mais enxerguei a vida do mesmo jeito. Como escolhemos levar a vida? No peso ou na leveza? O livro acompanha o relacionamento de dois casais ao longo de uma ou duas décadas na antiga Tchecoslováquia. 

Eu sempre desejei a leveza, mas andava com pesos amarrados aos pés, que eram tão difíceis de carregar que eu precisava me anestesiar. Lembrei agora do clip de uma música que gosto muito, em que o vocalista anda na beira da praia arrastando não correntes, mas dezenas de latas de cerveja amarradas aos seus pés. Tão eu. 

Em alguns poucos momentos da vida, parecia que conseguia me libertar um pouco desse excesso, mas em seguida me via de submergindo entre pedras no rio. 

Pouco antes das minhas férias, há vinte dias atrás, estava arrastando correntes pelo escritório, preocupada com os clientes  (muitos necessitados e com demandas urgentes), incomodada com a demora do judiciário, com decisões ruins, com Peritos cretinos, com falta de dinheiro, tomando muito café, bebendo demais, dormindo de menos e sem qualidade, a ponto de perder boa parte da vaidade, da fé. Eu queria sumir. Mas então a colega que tinha saído em licença maternidade voltou, eu tirei meus 18 dias (incluindo fins de semana) e consegui me afastar um pouco de tudo.

Meus problemas não acabaram durante as férias, viajei alguns dias para Maceió e, como me levei, não tinha para onde fugir. Mas consegui passar uns dias por lá, ora errando, ora acertando, voltei e resolvi organizar a vida, me cuidar, enfrentar desafios (questões jurídicas de família) que vinha enrolando e deixando para depois e não menos importante, resolvi fazer meus vícios descerem a escada, degrau por degrau, como diz a frase de um escritor famoso citado no instagram, mas agora não lembro. 

E uma das questões que tenho por meta, também, é ser mais leve e menos pesada nessa vida. Não é que não vá sofrer, chorar, me envolver, evitar coisas difíceis ou duras. Mas eu pretendo ter empatia, só que sem excesso. Pretendo ajudar, mas sem me demolir ou deprimir e tentar sempre ver o lado bom...e quando não conseguir, rezar e torcer para que um dia eu possa entender porque coisas ruins acontecem. Porque acho que só assim a vida pode ser mais suportável. Vejo que as pessoas mais leves são muitas vezes as mais resilientes. E muitas delas, ao contrário do que se pensa, passaram por coisas dificilimas na vida - como uma mulher que conheci na viagem, em Maceió. Mas escolhem sobreviver e ultrapassar isso. Ela é leve, encantadora e nada a faz parar. Espero que continue assim e que realize seus sonhos. Mesmo minha colega de escritório, cuja Mãe lutou contra vários cânceres durante 07 anos, o que envolveu inúmeros sustos, internações, renúncias, dor e sofrimentos diversos, também tem um modo positivo de levar a vida, com força e sorrisos. 
Procuro pela leveza, mas sem superficialidade. E vou lutar por isso. 

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